BREVE ANÁLISE SOBRE O DESENVOLVIMENTO DA FIGURA FEMININA NO ESPORTE AO LONGO DA HISTÓRIA
- CDD Maringá
- 16 de jul. de 2019
- 5 min de leitura
Entre os meses de junho e julho deste ano, os olhos de todo o mundo estiveram voltados para as mulheres, em razão da Copa do Mundo de Futebol Feminino, ocorrida na França e que acabou consagrando a seleção dos EUA campeã. Muitas questões polêmicas foram levantadas, principalmente quanto às diferenças de tratamento concedidas para as seleções femininas e masculinas, bem como, questões políticas e de cunho feminista.
Ocorre que, muito embora o papel feminino no esporte tenha recebido destaque, o caminho trilhado foi árduo, repleto de objeções, distinções, imposições e questionamentos.
Segundo relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) realizado em 2017, no Brasil, o público feminino, no que diz respeito à prática de exercícios físicos, é 40% inferior ao masculino.[1]
Assim, o presente artigo tem por objetivo analisar brevemente o desenvolvimento da figura feminina no esporte ao longo da história, utilizando como ponto de partida as Olimpíadas da Grécia, para enfim chegar nos dias atuais.
Não é de conhecimento comum, porém, na Grécia Antiga, além de serem terminantemente proibidas de participar, sob a justificativa de que teriam seus corpos masculinizados, as mulheres sequer podiam assistir aos Jogos, sob pena de morte. [2]
Já na era Moderna, durante a edição dos Jogos Olímpicos de 1896, ainda não havia liberação para participação feminina. Por este motivo, uma mulher grega chamada Stamati Revithi decidiu realizar o percurso da maratona do lado de fora do estádio, e acabou o completando em tempo menor do que de alguns homens que disputavam a prova. [3]
Já os Jogos Olímpicos disputados em Paris, no ano de 1900, inauguraram a participação do público feminino no evento, ainda que de forma extraoficial, posto que, além de se limitarem ao tênis e ao golfe, as participantes não recebiam o mesmo tratamento do público masculino. [4]
Dezessete anos depois, a francesa Alice Melliat fundou a FEFI – Federação Esportiva Feminina Internacional, e dentre outras coisas, organizou os Jogos Olímpicos Femininos ocorridos entre os anos de 1922 e 1934, e assim, no ano de 1936, durante os Jogos Olímpicos de Berlim, as mulheres foram reconhecidas como atletas olímpicas pelo Comitê Olímpico Internacional.[5]
No Brasil, as mulheres já vinham questionando a situação de subordinação que lhes era imposta desde o século XIX, e assim, alcançando paulatinamente direitos mínimos, como por exemplo, o direito à educação elementar e posteriormente o acesso ao ensino superior.[6]
No entanto, o ano de 1932 se tornou verdadeiro marco histórico nacional, não somente por ter sido o ano em que as mulheres conquistaram o direito ao voto, mas também, em razão da participação de Maria Lenk, uma brasileira de apenas 17 anos, em Jogos Olímpicos. Além de ser a primeira sul-americana a participar do evento, sagrou-se como “(...) a principal nadadora brasileira da história e única mulher do país a entrar para o Hall da Fama da natação”. [7]
Contudo, como dito alhures, a participação feminina no mundo do esporte sempre foi muito questionada, em diversos aspectos. À mulher, cabia exclusivamente o papel maternal, sem qualquer ou pouquíssimo protagonismo social.
O desenvolvimento social advindo da industrialização e da modernização foi responsável por aumentar a expressividade feminina, de modo que, muito embora a família tenha continuado como o seu foco principal, deixou de ser exclusividade dentre seus interesses. [8]
Nota-se, entretanto, que a participação feminina no mercado de trabalho ocorreu de modo desproporcional ao desenvolvimento das demais estruturas sociais exigidas, e assim, a mulher passou a ser sobrecarregada pela dupla jornada de trabalho, o que de fato, acabou por dificultar a disputa pelo poder com o público masculino, o qual na grande maioria das vezes, não possui as mesmas obrigações sociais exigidas do público feminino.[9]
Entretanto, é notório o fato de que às mulheres, foi e continua sendo concedido os símbolos sociais de poder e sexualidade, os quais podem ser definidos em diversos aspectos.[10] Porém, a objetificação e a percepção à estas imposta, de seres inferiores e frágeis, certamente foram responsáveis por dificultar a inserção feminina de modo amplo no mundo do esporte, principalmente no que tange aos esportes de alto rendimento, sendo o preconceito mais um obstáculo a ser ultrapassado, ante a associação do esporte ao corpo masculino.[11]
Convém observar ainda que a mudança na perspectiva acerca da participação da mulher no mundo esportivo não aconteceu de forma constante e ampla, mas sim, gradativa.
Em 1934, o Regulamento nº 07 estabeleceu que exercícios intensos e que envolvessem força não seriam compatíveis com a personalidade feminina e suas funções reprodutivas.[12] No ano de 1941, fora expedido o Decreto Lei nº 3.199, de 14 de abril de 1941, segundo o qual, não se permitia às mulheres a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza.
Ainda no ano de 1965, o Conselho Nacional de Desportos proibiu às mulheres a prática, por exemplo, de lutas de qualquer natureza, futebol e baseball, proibição esta que só veio a ser revogada no ano de 1979.[13]
Todavia, a história de luta e perseverança feminina a fim de modificar essa perspectiva permanece até os dias atuais. Após Maria Lenk, destacam-se nomes como Aída dos Santos, atleta de salto em altura e primeira mulher brasileira a disputar uma final olímpica[14], Jacqueline e Sandra, atletas do vôlei de praia que conquistaram medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Atlanta em 1996.[15]
Já na história recente, nomes como o da judoca Rafaela Silva, medalha de ouro olímpica do Brasil nos Jogos Rio 2016[16], e Marta, eleita seis vezes a melhor jogadora de futebol do mundo pela FIFA, merecem ser destacados. [17] A luta feminina atualmente gira em torno da disparidade de salários, investimentos e patrocínio das empresas, e que, no que diz respeito ao futebol, tornou-se evidente através da jogadora de futebol Marta Silva, que na Copa do Mundo de Futebol Feminino de 2019, entrou em campo utilizando uma chuteira onde no lugar da logomarca de patrocínio, continha o símbolo de um movimento de luta por equidade de gênero.
Embora o avanço tenha sido grande, há muito que ser conquistado, principalmente no que diz respeito ao incentivo a prática esportiva feminina, bem como, o combate ao preconceito e a igualdade de salários e investimentos, visando empoderar mulheres para participar ativamente desde esportes como a corrida de rua, até mesmo a ocupar cargos de liderança dentro do mundo esportivo.
Letícia Fernanda dos Santos Silva - OAB/PR 77.907
Membro da Comissão de Direito Desportivo da OAB/Maringá.
Referências:
[1]https://globoesporte.globo.com/outros-esportes/noticia/mulheres-no-esporte-o-tabu-e-a-historia-por-tras-da-pouca-representatividade-feminina.ghtml
[6] http://movimentoevida.org/wp-content/uploads/2017/09/Atividades-Fi%CC%81sicas-e-Esportivas-e-Ge%CC%82nero.pdf
[8] MOURÃO, Ludmila. Mulher e esporte. Mitos e verdades. Exclusão e inserção da mulher brasileira em atividades físicas e esportivas. Manole: São Paulo, 2003. p 124.
[9] FREITAS, Sidinéia Gomes. Mulher e esporte. Mitos e verdades. Mulher: fonte e instrumento de poder. Manole: São Paulo, 2003. p 50.
[10] FREITAS, Sidinéia Gomes. Mulher e esporte. Mitos e verdades. Manole: São Paulo, 2003. p 50
[11] MOURÃO, Ludmila. Mulher e esporte. Mitos e verdades. Exclusão e inserção da mulher brasileira em atividades físicas e esportivas. Manole: São Paulo, 2003. p 131.
[12] http://movimentoevida.org/wp-content/uploads/2017/09/Atividades-Fi%CC%81sicas-e-Esportivas-e-Ge%CC%82nero.pdf
[13] http://movimentoevida.org/wp-content/uploads/2017/09/Atividades-Fi%CC%81sicas-e-Esportivas-e-Ge%CC%82nero.pdf
Comentários